6 de ago. de 2014

Não chores, Querubim!

Por entre choro, escorrem palavras.
Um tiro no escuro de uma cidadela
acertou o infinito inatingível.
E da costela, se fez poeta!

O canto ecoa, à toa, como um gemido
D’uma dor da cor que ninguém vê.
Um grito em meio ao caos...
O som não se propaga no vazio.

Num ranger de dentes, o fogo, o gozo,
Um sussurro... afagam o coração tolo.
Cansado do caminhar desatinado,
pela estrada cega, o guia se perdeu.

O abrigo da caverna é obscuro.
Gotas penetram aonde não cabem.
Mal sabem que o rio não é mais o mesmo.
Fungível, como pensamento, o leito.

Mas a carne não apodrecerá.
Afinal, feridas cicatrizam.
Deixam na memória, na história,
odor de sangue derramado em vão.

Da imagem, um reflexo sem brilho, inflexo.
Não olheis para o espelho ou virai pedra.
Uma ilusão esconde espinhos,
portanto, protege-te da miragem.

Afugenta o sentimento ou te suja com as nódoas.
Se o lamento é eterno, até onde ir?
A chaga que não sara, remediar é inútil.
Um anjo chora de pavor, sem consolo.

Neil Silveira _ 06.08.2014 

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